

Ilhéus, parece ter trocado o gosto do chocolate pelo sabor do sal grosso da desconfiança. Em ano eleitoral, até o vento que sopra do litoral parece ensaiado. As últimas semanas foram como um prato cheio para os amantes da teoria da conspiração. Contudo, os realistas, sabem que na política a coincidência às vezes soa como sopa requentada.
De um lado, a Polícia Federal deflagra a “Operação Merenda Digna”, mirando supostos desvios na alimentação escolar. Do outro, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) desembarca em solo ilheense com pompa e circunstância para inaugurar a nova sede da Companhia Independente de Policiamento Especializado (CIPE). O intervalo entre um ato e outro é de apenas uma semana. Como nos contos de Edgar Allan Poe, o número ronda a história com uma precisão cirúrgica.
As coincidências não param na agenda governamental. O que desperta o faro do mais tímido dos gatos (e olhe que bicho desconfiado é o felino) é o fato de que alguns veículos de comunicação, receberam um release detalhado sobre a operação antes dela acontecer. Enquanto a maioria dos mortais acordava para o evento, outros já tinham o furo na mão, quentinho como pão de padaria. Coincidência ou conveniência? No jornalismo, quando a informação vaza para poucos, a transparência vaza junto e com sabor de interesses.
O cenário ficou ainda mais ácido nesta segunda-feira (8). O vereador Mesaque, durante entrevista ao programa “O Tabuleiro”, jogou gasolina na fogueira. “Em 2024, a estrutura da Polícia Federal foi utilizada politicamente contra o candidato apoiado pelo governo municipal”, afirmou o vereador.
O problema não é discutir o papel da Polícia Federal, pois ela cumpre o seu dever. Mas a dúvida fica em algumas perguntas simples: como pode uma operação legítima ter data marcada na véspera da visita do governador? Como pode um release chegar antes a veículos escolhidos? Coincidência ou conveniência? A diferença é que, na primeira, ninguém manda. Na segunda, sempre há um dedo por trás.